Vale anuncia R$ 5 milhões para a cultura regional, mas vereadores cobram mais

Vale anuncia R$ 5 milhões para a cultura regional, mas vereadores cobram mais

A Vale Metais Básicos promete colocar R$ 5 milhões à disposição de projetos culturais do sudeste do Pará em 2027, mas o anúncio está longe de encerrar a cobrança por mais investimentos em Marabá. Para vereadores, representantes do setor cultural e da classe empresarial, o valor continua abaixo do esperado diante da dimensão da atividade mineradora na região e da contribuição do município para os resultados da companhia.

A insatisfação marcou a reunião realizada na tarde desta quinta-feira (22), na Sala de Comissões da Câmara Municipal de Marabá, entre a Comissão Especial de Desenvolvimento Sustentável do Legislativo, executivos da mineradora e representantes do segmento cultural e Associação Comercial e Industrial de Marabá (ACIM). O debate girou em torno da distribuição dos recursos destinados à cultura e da necessidade de ampliar o apoio aos artistas e grupos que mantêm vivas as manifestações populares da região.

Os números apresentados pelos parlamentares ajudam a dimensionar a discussão. Entre 2018 e 2025, a Vale investiu aproximadamente R$ 140 milhões em ações culturais em todo o Brasil. Desse montante, cerca de R$ 3,37 milhões foram destinados a grupos de Marabá, quantia considerada modesta pelos vereadores diante da importância econômica do município para a atividade mineral.

Para 2026, a empresa informou ter destinado R$ 900 mil a eventos culturais em Marabá. Já a previsão para o próximo ano é de um edital voltado a toda a região sudeste do Pará, com orçamento de R$ 5 milhões. A proposta, entretanto, não convenceu os representantes locais, que defendem uma contrapartida mais expressiva e uma distribuição dos recursos que alcance efetivamente os produtores culturais.

Quadrilhas juninas, blocos carnavalescos, artesãos e grupos de teatro, dança e música popular estão entre os segmentos que dependem de apoio financeiro para manter suas atividades. A comissão também defendeu mecanismos que facilitem o acesso desses grupos aos editais e patrocínios da companhia.

Vale anuncia edital regional

A gerente executiva de Assuntos Institucionais da Vale Metais Básicos, Mônica César, afirmou que a empresa reconhece a importância do setor cultural e que o tema é uma demanda prioritária. Ela explicou que os investimentos de 2026 foram direcionados a diferentes eventos e segmentos culturais e confirmou a previsão de um edital regional para 2027.

“É muito importante estarmos aqui, dando essa devolutiva, que para a empresa é uma demanda prioritária, que é o aporte ao setor cultural de Marabá. Sabemos da importância desse segmento para a sociedade, principalmente em Marabá e, por isso, nos comprometemos a dar o aporte necessário aos grupos culturais do município”, declarou.

Mônica acrescentou que a companhia realizou uma avaliação interna para identificar os recursos que poderiam ser destinados aos agentes culturais da região.

“Neste ano de 2026, destinamos um total de R$ 900 mil para os eventos culturais do município, que foram aplicados em diversos segmentos. Para 2027, abriremos um edital direcionado à região sudeste do Pará, onde serão destinados aos grupos R$ 5 milhões, que, a meu ver, será extremamente importante para o fomento das atividades promovidas por nossos artistas”, afirmou.

A coordenadora do Instituto Cultural Vale, Gabriela Feitosa, também destacou a intenção de estreitar o relacionamento com os produtores culturais e o Poder Legislativo. Segundo ela, o edital permitirá que representantes da cultura regional apresentem suas propostas à instituição.

“Nossa presença aqui tem como objetivo maior ampliar a aproximação entre a comunidade cultural da região e o Instituto Cultural Vale. Nesse sentido, como nossa colega já antecipou, haverá um edital direcionado para toda a nossa região sudeste do Pará, dispondo de um recurso girando em torno de R$ 5 milhões. A partir de janeiro, já estaremos aptos a receber essas solicitações, com o término previsto para o mês de abril”, explicou.

Vereadores contestam valor anunciado

Presidente da Comissão Especial de Desenvolvimento Sustentável, a vereadora Vanda Américo (União) foi direta ao avaliar a proposta. Para ela, os R$ 5 milhões previstos para toda a região sudeste do Pará estão muito aquém das necessidades dos produtores culturais, especialmente diante da contribuição econômica da área para a mineradora.

“Mais uma vez, estamos vendo uma compensação cultural realizada pela Companhia Vale bem abaixo do esperado para nossa região. Disponibilizar apenas R$ 5 milhões para o sudeste do Pará é muito pouco. Temos uma demanda gigantesca ao nosso redor, composto por pessoas que, com toda a dificuldade, alegram o nosso cotidiano e que, por isso, precisam ser assistidas”, declarou.

Vanda Américo preside a Comissão de Desenvolvimento, que dialoga com a Vale por mais recursos à cultura

A parlamentar também afirmou que Marabá não tem recebido investimentos culturais proporcionais à sua importância para a companhia. A cobrança, segundo ela, não se limita ao valor anunciado, mas envolve o reconhecimento dos grupos que desenvolvem atividades culturais mesmo diante das dificuldades financeiras.

Membro da comissão, o vereador Pastor Ronisteu (PL) demonstrou frustração com a proposta apresentada pelos executivos. Ele lembrou que a ampliação dos recursos já havia sido reivindicada em reuniões anteriores, mas considerou que a resposta da empresa ainda não corresponde às expectativas.

“Lá atrás, quando nos reunimos, reivindicamos um aporte maior para com os nossos promotores culturais, mas, infelizmente, não é isso que estamos vendo. Precisamos de mudanças e esperamos que elas aconteçam”, afirmou.

 

Setor empresarial e artistas cobram maior contrapartida

A presidente da Associação Comercial de Marabá, Nilva Olivi, reforçou a cobrança por maior reconhecimento ao município. Para ela, a contribuição histórica de Marabá para o desenvolvimento regional e para os resultados financeiros da Vale deveria se refletir em investimentos culturais mais robustos.

Presidente da ACIM, Nilva Olivi reforçou a cobrança por maior reconhecimento ao município

“Historicamente, Marabá tem um legado de contribuição para o desenvolvimento da região e, principalmente, com as finanças da mineradora Vale. As contrapartidas feitas pela empresa junto ao movimento cultural dessa terra estão aquém do esperado e, com essa proposta formalizada agora há pouco, essa situação só piorou. Isso é inadmissível. Estamos no epicentro da exploração mineral realizada pela Vale e, por esse motivo, precisamos ser mais valorizados”, declarou.

Representando instituições, produtores e grupos culturais, Wilson de Sousa Teixeira, conhecido como Wilsão, afirmou que os recursos anunciados não correspondem às necessidades dos artistas que realizam espetáculos e mantêm manifestações culturais na região. Ele defendeu que o apoio financeiro seja tratado como parte do reconhecimento devido à cultura local.

Wilsão: “Os recursos anunciados não correspondem às necessidades dos artistas que realizam espetáculos e mantêm manifestações culturais na região”

“A cultura não é uma mercadoria, ela é consequente à origem de um povo. Por isso, esses movimentos devem ser tratados de maneira séria, e essa seriedade se dá por meio de valorização. Esse recurso disponibilizado pela empresa para a nossa região no ano de 2027 é irrisório. Está muito aquém da expectativa. Queremos ser reconhecidos e valorizados. O que estamos pedindo não é favor, é uma contrapartida diante de tudo que é explorado em nossa região. A Vale pode mais e a região merece isso”, concluiu.

 

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