Tecnologia 100% nacional chega a custar um décimo do preço dos adubos minerais importados e já trata mais de dois milhões de hectares em todo o país

A dependência brasileira de fertilizantes importados continua sendo um dos maiores pontos de vulnerabilidade do agronegócio nacional. Mesmo sendo o maior produtor de alimentos do mundo, o Brasil ainda importa cerca de 85% dos seus fertilizantes minerais, uma redução tímida em relação aos 90% de duas décadas atrás. Para enfrentar esse cenário, o governo federal estruturou o Plano Nacional de Fertilizantes com a meta de cortar essa dependência pela metade, e uma tecnologia genuinamente brasileira vem ganhando terreno nessa disputa: o pó de rocha, tecnicamente chamado de remineralizador de solos.
O Brasil foi a primeira nação do mundo a regulamentar o uso agrícola de pós de rocha, por meio da Lei nº 12.890 de 2013, normatizada pelo Ministério da Agricultura em 2016, quando foi criada juridicamente a categoria oficial de remineralizador de solos. Hoje, o país já conta com mais de 100 produtos comerciais registrados e mais de dois milhões de hectares tratados com essa tecnologia de rochagem.
O geólogo e pesquisador da Embrapa Cerrados, Dr. Éder de Souza Martins, é um dos principais nomes que defende a adoção em larga escala do insumo. Segundo ele, o produto atua como um condicionador integral para solos velhos e desgastados pelo intemperismo, como os típicos do Cerrado, agindo em três frentes ao mesmo tempo. A aplicação de rochas silicáticas moídas, como o basalto ou a biotita xisto, introduz no solo uma ampla gama de elementos como cálcio, magnésio, potássio, fósforo e micronutrientes essenciais. Além disso, o insumo eleva o pH do solo, neutraliza o alumínio tóxico e atua em sinergia com o calcário agrícola, melhorando a Capacidade de Troca Catiônica e a retenção de umidade.
Há ainda um benefício específico para a pecuária que chama atenção dos especialistas. As rochas silicáticas liberam altas doses de silício solúvel, elemento absorvido pelas gramíneas, como braquiárias e coloniões, que fortalece a parede celular da planta, tornando o capim mais tolerante ao estresse hídrico e mais resistente ao ataque de pragas como a cigarrinha-das-pastagens.
O nitrogênio: o único ponto fora da curva
O pesquisador da Embrapa faz questão de ser preciso: o pó de rocha possui quase todos os minerais necessários para a nutrição vegetal, exceto o nitrogênio, cuja fonte natural está na atmosfera e não nas rochas. Para quem quer reduzir ao máximo a dependência da ureia importada, a saída recomendada é o consórcio com leguminosas nas pastagens. A exemplo do que o país já faz com sucesso na sojicultura por meio da Fixação Biológica de Nitrogênio, plantas como o estilosantes e o feijão guandu capturam o nitrogênio do ar e abastecem o capim, enquanto o remineralizador fornece a base mineral a custo baixo.
Logística define a viabilidade
O preço do produto na boca da mina é um dos seus maiores atrativos. O pó de rocha custa cerca de 10% do valor de um fertilizante mineral tradicional, com preço semelhante ou ligeiramente superior ao do calcário agrícola. O fator que pode comprometer esse custo-benefício, no entanto, é o frete. Como o manejo exige a aplicação de grandes volumes por área, o ideal é buscar indústrias de britagem ou mineradoras registradas em um raio de no máximo 300 quilômetros da propriedade. O resíduo fino da produção de brita regional, por sinal, é um excelente remineralizador em potencial e muitas vezes é descartado sem valor comercial pelas mineradoras.
Quanto à dosagem, a recomendação clássica da Embrapa para a aplicação inicial é de 5 a 8 toneladas por hectare, sempre precedida de análise de solo. A partir do terceiro ano, as aplicações de manutenção podem ser feitas com doses menores, entre 1 e 2 toneladas por hectare.
Uma aposta de longo prazo
O remineralizador de solos não chega ao mercado como substituto imediato dos fertilizantes convencionais, mas como uma estratégia de sustentabilidade econômica de médio e longo prazo. Em regiões como o sul do Pará, onde a pecuária avança sobre solos tropicais profundos e a distância das grandes distribuidoras de insumos pesa no custo de produção, a tecnologia da rochagem representa uma alternativa concreta para reduzir a exposição do produtor às oscilações do mercado externo, e às incertezas geopolíticas que continuam pressionando o preço dos fertilizantes importados.
