A Secretaria de Estado de Saúde Pública realizou uma oficina em Belém para discutir fluxos de atendimento, notificação e manejo de casos de infecções sexualmente transmissíveis. A iniciativa integrou a campanha nacional Outubro Verde e teve como foco qualificar a assistência nas unidades de referência materno-infantil e de doenças infecciosas e parasitárias, fortalecendo o diagnóstico precoce e o tratamento adequado da enfermidade no território paraense.
Desafios no combate à transmissão vertical
A transmissão da infecção da mãe para o bebê continua sendo um ponto crítico na saúde pública regional. Embora existam métodos eficazes de diagnóstico e tratamento, os índices de transmissão vertical ainda exigem atenção redobrada dos profissionais da saúde. O controle efetivo da doença congênita depende diretamente de intervenções robustas voltadas para a população geral e, principalmente, para as mulheres durante a gravidez.
De acordo com a farmacêutica-bioquímica da Coordenação Estadual de IST/Aids, Charliana Damasceno, doutora em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários, a sífilis continua sendo um grave problema de saúde pública e um desafio de preocupação nacional e regional, devido à necessidade de fortalecimento contínuo da integração entre a Atenção Primária em Saúde e Vigilância.
Nos últimos anos, a ampliação na oferta de testes rápidos ajudou a elevar o rastreio e a notificação de ocorrências, permitindo intervenções mais assertivas. “É importante destacar que o controle da sífilis congênita só é possível quando há esse tipo de intervenção, pois a sífilis em gestante é uma sífilis adquirida na condição gestação, e ampliar as ações contra a sífilis adquirida significa reduzir casos de sífilis em gestante e por consequência sífilis congênita”, enfatizou a especialista.
Ela também pontuou que o aumento anterior nos registros ocorreu porque diversos municípios superaram a fase de silêncio epidemiológico, revelando a real dimensão do problema. “Em relação à sífilis congênita, nesse período, foi constatada a elevação dos casos, pois muitos municípios saíram do silêncio epidemiológico, permitindo conhecer a real magnitude do problema em cada região do Estado do Pará, o que contribuiu para articulação de ações mais efetivas da política estadual junto aos municípios, promovendo intervenções para o controle e ou eliminação da sífilis congênita”, observou a técnica.
Balanço oficial e recuo nos indicadores
Os registros estaduais apontam que entre janeiro e setembro de 2026 foram contabilizados 5.249 casos de sífilis adquirida, 3.810 em gestantes e 930 na forma congênita. No mesmo período de 2025, os números foram de 4.853, 4.194 e 1.143, respectivamente. Ao longo de todo o ano anterior, o estado acumulou 6.489 registros em pessoas adultas, 5.556 em grávidas e 1.514 em recém-nascidos.
Para Charliana Damasceno, os novos patamares indicam uma mudança positiva no cenário epidemiológico. “As notificações de sífilis adquirida se mantém elevadas nos dois últimos anos, no entanto, o número de casos de sífilis na condição gestação começa a recuar e por consequência o número de casos de sífilis congênita, o que revela que as ações executadas junto aos municípios começam a obter resultados”, observou.
Cuidados essenciais nas maternidades
O manejo clínico adequado nas maternidades também ganhou destaque durante as capacitações promovidas pela pasta estadual de saúde. A coordenadora de IST/Aids, Andrea Miranda, reforçou a necessidade de vigilância contínua mesmo após o acompanhamento pré-natal.
“A nossa capacitação também tem o intuito de melhorar o cuidado com a gestante e o recém-nascido. Apesar de a gestante diagnosticada com sífilis ter todo um acompanhamento no pré-natal é fundamental que a mãe consiga avaliar se essa mulher foi tratada adequadamente ou se precisará de manejo de tratamento adequado. Mesmo após o tratamento, ao chegar à maternidade, ela passa por novo exame e o recém-nascido também é avaliado. Vamos focar nesse tema, entendendo que a sífilis congênita também é uma das causas da mortalidade infantil”, ressaltou Andrea Miranda.
Causada pela bactéria Treponema pallidum, a infecção é transmitida principalmente por relações sexuais sem proteção. Sintomas comuns incluem pequenas feridas nos órgãos sexuais e manchas nas palmas das mãos e plantas dos pés. A prevenção envolve o uso de preservativos, a realização regular do pré-natal e a testagem rotineira. O tratamento com penicilina é gratuito e está disponível em todas as Unidades Básicas de Saúde.
