O papa Leão XIV deu início nesta sexta-feira (6) à sua primeira viagem oficial à América Latina. O pontífice partiu de Roma durante a manhã com destino ao Uruguai, marcando o começo de um itinerário de 11 dias que atravessará uma região historicamente católica, mas que enfrenta um cenário de mudanças religiosas aceleradas.
Um roteiro exigente após questões de saúde
Apesar de ter passado recentemente por uma cirurgia para a retirada de um câncer de pulmão, o Vaticano confirmou que a agenda de Leão XIV, aos 71 anos, permanece inalterada. O cronograma é um dos mais intensos das últimas décadas, totalizando cerca de 31 mil quilômetros percorridos. O roteiro inclui dois dias no Uruguai, três na Argentina — terra natal de seu antecessor, Francisco — e uma semana no Peru, país onde o atual papa atuou como missionário e bispo.
O declínio do catolicismo e a busca por espiritualidade
Embora a América Latina ainda concentre a maior população católica global, a identificação com a instituição tem caído. Dados de 2024 do Pew Research Center revelam que, em seis dos países mais populosos da região, a proporção de católicos diminuiu em relação à década anterior. “Observamos um declínio em todos os países que pesquisamos em 2024”, disse Kirsten Lesage, pesquisadora associada do Pew Research Center. Ela complementa que, apesar da queda na identificação institucional, a região mantém sua essência espiritual: “Há menos pessoas se identificando [como católicas]”, disse. “A região ainda é muito religiosa, e as pessoas são muito religiosas sob diversos critérios.”
Novas formas de fé
Essa transição reflete uma mudança na prática religiosa, onde muitos buscam experiências fora do modelo tradicional. O padre Jorge Reinaudo, que utiliza redes sociais para evangelizar, observa que jovens estão mesclando tradições cristãs com outras correntes espirituais. “Não pertencer a uma religião não significa que as pessoas não tenham fé. Significa que vivem a fé à própria maneira”, disse Reinaudo.
Desafios institucionais e mudanças sociais
A perda de fiéis também está ligada a rupturas de confiança. Marverick Ruben Mendoza Oseguera, um contador de 31 anos, relata que casos de abusos e condutas inadequadas no clero o afastaram da Igreja. “Experiências como essas minaram a confiança e a fé de muitos jovens, inclusive a minha”, disse. Oseguera, que mantém práticas de adoração online, descreve sua relação atual com o sagrado: “Parece mais que estou passando um tempo com um amigo próximo”, afirmou.
Para especialistas como o professor Miguel Pastorino, da Universidade Católica do Uruguai, o fenômeno aponta para uma “religiosidade à la carte”. “Há uma tendência crescente em direção à religiosidade ‘à la carte’, na qual as pessoas criam o próprio cardápio espiritual, sem sentir a necessidade de se filiar a nenhuma instituição específica”, disse. Pastorino também aponta que o crescimento das igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais, ocorre por uma abordagem mais direta. “Eles [os pentecostais] vão direto ao testemunho pessoal, como fazia a Igreja primitiva”, disse. “Quando a Igreja Católica vai aos bairros pobres, muitas vezes realiza um grande trabalho social, mas faz muito pouca evangelização.”
Apesar das críticas e do cenário adverso, a presença do líder máximo da Igreja pode ter um efeito reanimador imediato. O pároco Pablo Coimbra, em Montevidéu, já nota uma maior procura por sacramentos. “A visita do papa talvez tenha despertado uma lembrança, algo profundo no coração das pessoas em relação à fé e ao sentimento de pertencimento à Igreja”, disse.
