Pesquisa realizada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em colaboração com a Croplife Brasil, revela que a ausência de estratégias de proteção contra pragas, doenças e plantas daninhas pode resultar em uma queda de até 55% na produtividade da soja no país. O levantamento alerta que o cenário de desassistência fitossanitária comprometeria não apenas o rendimento das safras, mas também a estabilidade econômica brasileira e o custo de vida da população.
Impactos na economia e na mesa do brasileiro
O impacto da produtividade é direto no bolso do consumidor. A redução na oferta do grão pressionaria o preço de derivados, como óleo, leite e ovos, podendo elevar a inflação medida pelo IPCA em cerca de 0,26 ponto percentual. O estudo aponta que, sem o controle adequado, a receita de exportação poderia cair de US$ 44,2 bilhões para US$ 26,6 bilhões por safra.
“Essa redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço da carnes, carnes de porco, de frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja”, destaca a pesquisadora da UFV Ana Carolyne Carvalho.
Cenários de produtividade e manejo
Para chegar a esses números, a universidade simulou três condições de manejo. No cenário de controle ótimo, a produtividade atingiria 72 sacas por hectare. Já com o controle parcial, esse número cairia para 52 sacas, enquanto a ausência total de proteção limitaria a colheita a apenas 32 sacas. Para compensar a perda produtiva na ausência de manejo, seria necessário incorporar 33,5 milhões de hectares — uma área equivalente ao estado de Goiás — ao cultivo.
O uso de defensivos e o meio ambiente
Apesar da necessidade de proteção, o uso de químicos é alvo de debates sobre saúde pública e sustentabilidade. Dados do Ipea indicam que a soja, o milho e a cana-de-açúcar consomem 76% dos agrotóxicos no Brasil. Entre 2003 e 2023, o uso dessas substâncias no país cresceu 4,4 vezes, atingindo 10,9 kg por hectare, índice muito superior aos registrados nos Estados Unidos e na China.
“Os defensivos químicos podem apresentar riscos à saúde humana, incluindo efeitos agudos e crônicos, dependendo da toxicidade das substâncias e dos níveis de exposição. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos e afetar organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, com consequências para a biodiversidade”, alerta o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Robson Barizon.
Perspectivas tecnológicas e regulatórias
O setor defende que a tecnologia, incluindo organismos geneticamente modificados (OGM) e bioinsumos, é parte da solução para o manejo. Contudo, o uso de OGM apresenta desafios, pois, embora alguns ajudem a reduzir defensivos, outros favorecem a tolerância de ervas daninhas, exigindo doses maiores de herbicidas.
“No caso dos OGM, aprovados para comercialização, não existem evidências científicas robustas de riscos adicionais à saúde humana associados ao seu consumo. Os possíveis impactos ambientais estão relacionados principalmente às características da modificação genética e às práticas agrícolas associadas, como o uso intensivo de herbicidas em culturas tolerantes, que pode favorecer a seleção de plantas daninhas resistentes”, explica Barizon.
Do lado das empresas, a segurança dos produtos é o foco principal. “Para que um produto seja aprovado no Brasil, um defensivo químico passa por muitos estudos. Há um investimento muito grande do setor para poder garantir que aquele produto aprovado tenha a segurança, quando aplicado dentro das recomendações”, afirma o coordenador de Sustentabilidade da Croplife, Pedro Duarte.
O cenário é de cautela, especialmente diante do aumento de registros de novos defensivos químicos após a promulgação da nova Lei dos Agrotóxicos, que contabilizou 663 liberações em 2024. Paralelamente, dados compilados pela ONG Repórter Brasil apontam que o país registrou 73.391 casos de intoxicação por defensivos na última década, reforçando a necessidade de um equilíbrio rigoroso entre produtividade e segurança ambiental.
