Parentes de vítimas de crimes violentos participaram de um encontro promovido pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) em Marabá para compartilhar lutos, buscar orientações jurídicas e cobrar respostas do Estado diante de perdas irreparáveis.
Acolhimento humanizado para quem busca respostas
A iniciativa batizada de “Mães que choram e lutam por Justiça” ocorreu na manhã de uma terça-feira (20) e teve como principal objetivo aproximar a instituição das famílias que enfrentam o luto decorrente de homicídios, feminicídios, acidentes de trânsito e erros médicos.
De acordo com a titular da 5ª Promotoria de Justiça Criminal de Marabá, Cristine Magela, a intenção é garantir que os familiares saibam a quem recorrer e compreendam o papel do órgão, evitando que suas histórias se resumam a números frios em processos judiciais.
“Queremos ouvir quais são as angústias, os medos e as expectativas dessas famílias. Dizer que o Ministério Público está junto delas, que suas histórias não foram esquecidas e não serão esquecidas, mesmo depois que os processos terminarem”, explicou a promotora, que também relatou ter perdido o pai assassinado na juventude.
Origem da mobilização e histórias marcantes
O evento foi idealizado pela promotora de Justiça Ana Maria Magalhães, presidente da Associação do Ministério Público do Estado do Pará (AMPEP), motivada pela perda de um sobrinho durante uma operação policial. Para ela, o sofrimento dessas famílias é singular devido à definitividade da morte.
“Essas pessoas choram, mas lutam por Justiça e querem respostas do Estado”, pontuou Ana Maria ao destacar que o grupo engloba mães, pais, tias e irmãs de vítimas fatais de diferentes tipos de violência.
Durante a roda de conversa, histórias dolorosas vieram à tona. Maria Sebastiana Rodrigues relembrou a perda recente da filha Layane Rodrigues Porto, assassinada pelo ex-companheiro. Emocionada ao ouvir outros relatos, ela precisou de atendimento médico, mas reconheceu que acompanhar o andamento da justiça traz algum alívio.
Outro caso presente foi o de Marlene Sousa Feitosa, vítima de atropelamento. A filha, Nathiele Feitosa Lima, ressaltou a importância terapêutica e social do evento:
“Você ter espaço para compartilhar com pessoas que passam por uma situação parecida com a sua, é muito importante o processo de falar. Você conseguir transmitir, passar a sua dor, conversar sobre aquilo que você está sentindo, ter espaço para que você se tida vista e ouvida naquele momento que você está vulnerável, aquele momento que é doloroso, então ter momentos como esse é de suma importância”, afirmou.
Integração com a polícia civil
O evento também contou com a presença da diretora da 21ª Seccional Urbana de Polícia Civil, Simone Felinto, que elogiou a parceria com o Ministério Público e admitiu publicamente as dificuldades estruturais enfrentadas pela corporação, como a escassez de servidores na Delegacia de Homicídios.
“O problema começa a ser resolvido quando nós reconhecemos que temos um problema e que precisamos melhorar”, declarou a delegada, colocando a instituição à disposição para esclarecer dúvidas de inquéritos.
Assim como a histórica luta internacional de Zuzu Angel após a morte de seu filho na ditadura militar, os relatos em Marabá evidenciam que o tempo não apaga a ausência e que os familiares seguem firmes na recusa de deixar a violência cair no esquecimento.
