Canaã dos Carajás entra em 2027 com uma configuração política que nunca teve em seus 32 anos de emancipação. O engenheiro Eugênio Gadelha (MDB) foi eleito deputado estadual no último dia 4, com 52.726 votos, e vai ocupar uma das 41 cadeiras da Assembleia Legislativa do Pará.
Cinco dias depois, o governador eleito Daniel Santos (Podemos) anunciou o advogado Vinícius Borba como futuro secretário de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). Borba construiu sua carreira como advogado estabelecido em Canaã, com atuação em direito ambiental e agrário em toda a Amazônia.
A coincidência tem peso estratégico. O município que, por anos, dividiu seus votos entre vários nomes locais e ficou sem cadeira própria na Alepa agora soma um parlamentar e o comando da pasta que licencia e fiscaliza a atividade da qual depende sua riqueza: a mineração.
O tamanho de Canaã
Poucos municípios brasileiros mudaram tanto em tão pouco tempo. Segundo o Censo, Canaã saltou de 26.716 habitantes em 2010 para 77.079 em 2022, o maior crescimento proporcional do país. A estimativa do IBGE para 2026 já aponta 92.311 moradores.
O motor dessa expansão é a extração de ferro e cobre, que lidera o valor adicionado da economia local. Em 2024, Canaã exportou US$ 6,7 bilhões, o equivalente a 29,1% de tudo o que o Pará vendeu ao exterior, à frente de Parauapebas, segundo a Fapespa. O PIB per capita chegou a R$ 215,6 mil em 2023.
A riqueza mineral também chega aos cofres públicos. A prefeitura informou ter recebido cerca de R$ 750 milhões em CFEM em 2024, e o município liderou a arrecadação nacional dos royalties no primeiro trimestre de 2025. As receitas brutas realizadas somaram R$ 2,07 bilhões em 2025.
Esse é o retrato da força e, ao mesmo tempo, da vulnerabilidade de Canaã. Quase tudo depende de um único setor, cujas licenças, condicionantes e fiscalização passam por órgãos estaduais e federais e cujo prazo de validade já está no radar dos planejadores.
A principal referência para pensar o futuro de Canaã é o plano Canaã dos Nossos Sonhos, elaborado pela FGV Projetos em parceria com a prefeitura. Lançado na Fenecan de 2024, ele projeta o desenvolvimento do município até 2050.
O diagnóstico central é direto: a mineração, principal fonte de receita local, deve começar a perder fôlego ao longo dos próximos 25 anos. Por isso, o plano propõe construir desde já novas bases econômicas capazes de assumir a liderança do desenvolvimento quando o minério deixar de ser o motor principal.
O trabalho se organiza em três pilares: felicidade, prosperidade e sustentabilidade. Segundo o coordenador do projeto pela FGV, Aldo Labaki, a proposta vai além de um plano convencional de crescimento e busca alinhar esforços em torno de uma visão em que desenvolvimento e preservação ambiental caminham juntos.
Na Exposibram 2025, a prefeita Josemira Gadelha detalhou os eixos do plano: sustentabilidade ambiental e urbana, prosperidade econômica com estímulo ao empreendedorismo e ao turismo, e bem-estar social. A síntese que ela usou resume a lógica da estratégia: “Enquanto o minério é finito, o futuro é infinito”.
Entre as ações já anunciadas estão o Plano Municipal de Arborização e o Centro de Biotecnologia do Carajás. O plano também passou a orientar a peça orçamentária: as audiências da LDO 2026 já o apresentaram como norte dos investimentos até 2050.
Há um paradoxo que torna a janela atual ainda mais valiosa. No curto prazo, a mineração não encolhe, cresce: o programa Novo Carajás prevê ampliar em 20 milhões de toneladas por ano a capacidade do S11D. Ou seja, Canaã terá sua maior receita justamente no período em que precisa investir na própria transição.
Um ponto, porém, escapa ao alcance da prefeitura. Boa parte das alavancas que o plano exige licenças para novos empreendimentos, regularização fundiária e ambiental, rodovias, ensino técnico, incentivos fiscais, depende de decisões do governo do Estado. É aí que a nova representação política entra em cena.
Um deputado na Alepa
Um deputado estadual vota o orçamento do Estado, propõe emendas, integra comissões e fiscaliza o Executivo. Para um município do tamanho econômico de Canaã, isso significa ter alguém dentro da sala onde se decide quanto do dinheiro estadual volta para o sudeste paraense.
Eugênio Gadelha chega à Alepa com um perfil técnico e administrativo. Engenheiro, ex-secretário municipal de Obras e marido da prefeita Josemira Gadelha, ele conhece por dentro a carteira de projetos do município e as obras que dependem de parceria com o Estado.
A pauta que pode levar a Belém já aparece nas indicações da Câmara Municipal. Pedidos recentes de vereadores incluem um polo educacional com curso de Medicina, um polo agroindustrial e melhorias na PA-160, temas que dependem, em grande parte, de orçamento e decisão estaduais e que conversam diretamente com a diversificação proposta pela FGV.
Há também uma aritmética política a considerar. O MDB elegeu 13 dos 41 deputados e será a maior bancada da Casa, mas perdeu o governo: Daniel Santos venceu no primeiro turno com uma coligação liderada por Podemos e PL.
O resultado é uma posição rara para Canaã. O município terá um parlamentar no partido com mais votos na Assembleia e que nenhum governo pode ignorar e, ao mesmo tempo, um nome de sua confiança no primeiro escalão do novo governo. Seja qual for o arranjo de forças em Belém, a cidade dificilmente ficará sem interlocução.
A Semas e o município minerador
Para uma cidade que vive da mineração, a Secretaria de Meio Ambiente é talvez a pasta mais estratégica do governo estadual. É ela que concede licenças, fixa condicionantes, fiscaliza empreendimentos e pode suspender operações.
Canaã já sentiu esse poder na prática. Em fevereiro de 2024, a Semas suspendeu a licença de operação da mina de cobre do Sossego, alegando descumprimento de condicionantes e conflitos com comunidades vizinhas. A disputa foi parar no Tribunal de Justiça do Pará, e o licenciamento de novos projetos de cobre no município, como o Bacaba, também passou por audiência pública da secretaria.
A Semas também mexe diretamente no caixa municipal. É ela que calcula os índices do ICMS Verde, parcela do imposto distribuída conforme critérios como Cadastro Ambiental Rural, áreas protegidas, desmatamento e capacidade de gestão ambiental do município. Canaã, que abriga parte da Floresta Nacional de Carajás e do Parque Nacional dos Campos Ferruginosos, tem muito a ganhar com bons indicadores.
Vinícius Borba conhece esse território. Advogado há mais de 20 anos, com atuação em direito ambiental e agrário, ele é produtor rural e preside a Associação dos Produtores Rurais Independentes da Amazônia (Apria). Segundo o anúncio do governo eleito, participou do pacto pelo desmatamento zero em São Félix do Xingu, em 2022, e do acordo entre produtores rurais, Vale e ICMBio para consolidar o Parque dos Campos Ferruginosos.
Esse último ponto toca uma ferida antiga de Canaã. O parque foi criado como contrapartida ambiental ao S11D, e quase cem famílias de produtores que tinham terras na área passaram anos cobrando indenizações. Um secretário que acompanhou esse processo chega com conhecimento direto de um dos conflitos fundiários mais sensíveis da região.
O mesmo parque mostra o potencial da agenda ambiental para a diversificação. Em junho de 2026, Ministério do Turismo, ICMBio e Vale firmaram acordo de R$ 2,8 milhões para estruturar a visitação, exatamente o tipo de turismo de natureza que o plano da FGV aponta como nova matriz econômica.
Na prática, o que Canaã pode esperar de um secretário com esse perfil é previsibilidade. Isso inclui regularização ambiental mais ágil para propriedades rurais, licenciamento menos demorado para agroindústrias e negócios de turismo e diálogo técnico com as mineradoras, sempre dentro das regras, porque a credibilidade ambiental é também um ativo econômico.
A influência regional
O peso de Canaã vai muito além de suas fronteiras. Em 2024, a Região de Integração Carajás respondeu por 70,1% das exportações do Pará, e Canaã teve a maior fatia individual, com 29,1%, à frente de Parauapebas (27,2%) e Marabá (11,2%), segundo a Fapespa.
O eixo econômico do sudeste paraense está se deslocando. Com o programa Novo Carajás, os investimentos se concentram no ferro do S11D, em Canaã, e no cobre de Marabá, enquanto Parauapebas enfrenta o esgotamento de minas mais antigas. Canaã tende a se firmar como novo centro de gravidade da região.
O dilema da dependência mineral, porém, é regional. Parauapebas também recorreu à FGV e, em julho de 2026, realizou com apoio da Vale o Fórum das 10 Vocações Econômicas. Na ocasião, o prefeito Aurélio Goiano citou a queda da CFEM e as mudanças no ICMS como razões para acelerar a diversificação.
As vocações levantadas pelo vizinho, bioeconomia e biotecnologia, polo de educação técnica e superior, polo de saúde, agroindústria, turismo sustentável e verticalização da indústria mineral dialogam diretamente com o plano de Canaã. Dois municípios com o mesmo diagnóstico, feito pela mesma instituição, têm diante de si uma escolha: competir pelos mesmos investimentos ou dividir papéis.
A segunda opção é a que dá mais peso político em Belém. Uma agenda comum pode incluir o turismo no Parque dos Campos Ferruginosos, que fica entre os dois municípios, a logística da PA-160, a formação técnica regional e a regularização ambiental de propriedades rurais em toda a área de influência de Carajás.
É nesse ponto que a nova representação pode ultrapassar o interesse municipal. Um deputado com base em Canaã e um secretário que conhece o território têm condições de levar ao Estado uma pauta do sudeste paraense e não apenas de uma cidade, o que amplia alianças e reduz resistências.
Os riscos e o que observar
Um cenário favorável não é um resultado garantido. Três pontos merecem atenção desde já.
O primeiro é a controvérsia em torno do futuro secretário. A imprensa ambiental reagiu com preocupação: segundo o site O Eco, a Apria moveu ações contra o Programa Pecuária Sustentável do Pará e contra o Ibama. Na campanha, Borba defendeu que o Pará só exija a rastreabilidade individual do rebanho quando o restante do país fizer o mesmo: “Quando o resto do Brasil for rastrear, a gente rastreia”.
Os apoiadores enxergam o oposto. Para eles, a escolha leva ao governo diálogo com o setor produtivo e segurança jurídica para quem produz, argumento repetido pelo governador eleito e por aliados como o deputado Rogério Barra.
Para Canaã, o equilíbrio entre essas visões tem consequência prática. O município exporta para mercados cada vez mais exigentes em critérios socioambientais, e o caso do Sossego mostrou que licenças frágeis acabam nos tribunais. Flexibilização percebida como política pode gerar insegurança, e não o contrário além de contrariar a premissa do próprio plano da FGV, que une desenvolvimento e preservação.
O segundo ponto é a impessoalidade. Um secretário com raízes profissionais em Canaã vai decidir sobre licenças de empreendimentos no próprio município. Cada decisão será observada de perto, e processos transparentes protegem tanto o gestor quanto a cidade.
O terceiro é a gestão das expectativas. A proximidade entre a prefeitura e o novo deputado facilita a coordenação, mas aumenta a importância da fiscalização pela sociedade civil. Além disso, um parlamentar entre 41 não define sozinho o orçamento, e a relação do MDB com o novo governo ainda está por ser construída.
Uma janela de quatro anos
Entre 2027 e 2030, Canaã terá uma combinação rara: receita mineral em alta, um plano de longo prazo elaborado pela FGV, um deputado na maior bancada da Alepa e um secretário na pasta mais sensível para sua economia.
O primeiro teste concreto vem cedo. Em 2027, o novo governo elabora o Plano Plurianual 2028–2031, e incluir nele as prioridades da diversificação: ensino técnico e superior, rodovias, bioeconomia, turismo e estrutura de licenciamento no sudeste será a primeira medida de que a representação se converteu em resultado.
Daí em diante, os indicadores a acompanhar são objetivos: investimentos estaduais na PA-160 e na formação profissional, prazos de licenciamento para empreendimentos fora da mineração, a evolução do ICMS Verde do município, a abertura do Parque dos Campos Ferruginosos à visitação e a construção de uma pauta comum com Parauapebas e os demais vizinhos.
A mineração fez de Canaã uma das cidades mais ricas do país. A política, agora, pode ajudá-la a continuar próspera depois do minério, desde que a nova representação seja usada para planejar o futuro, e não apenas para garantir acesso ao poder.
