As urnas de 4 de outubro mandaram dois recados a Canaã dos Carajás, e eles apontam em direções diferentes. O primeiro é local: o município que mais arrecadou royalties de mineração no país em 2025 terá, enfim, um deputado estadual próprio, Eugênio Gadelha (MDB).
O segundo vem de Belém. O grupo político ao qual a prefeitura de Canaã está alinhada perdeu o comando do estado para Daniel Santos (Podemos), que governará o Pará a partir de 6 de janeiro de 2027.
Entender o que esses dois resultados significam juntos é a tarefa que se impõe à política regional nos próximos meses.
A régua de 2024
Para medir o tamanho da vitória de Eugênio, a régua natural é a eleição municipal de 2024. Naquele ano, Josemira Gadelha foi reeleita prefeita com 44.363 votos, ou 80,51% dos válidos, o melhor desempenho já registrado no município. Quatro anos antes, ela havia vencido com 60,26%.
A comparação, porém, exige cuidado. Na disputa pela prefeitura, o eleitor escolheu entre três candidatos. Na eleição para deputado estadual, centenas de nomes disputam o mesmo voto, inclusive candidatos de outras regiões que historicamente buscam apoio em Canaã. Um percentual abaixo do de 2024 não significa, por si só, perda de força.
Em Canaã, Eugênio obteve 20.088 votos e percentual de 39,42% de votos válidos no município, segundo o TSE. É esse número, posto ao lado dos 80,51% de 2024, que mostra quanto do capital político da prefeita se converteu em voto para o marido.
No estado, ele somou 52.726 votos, mais do que os 44.363 que reelegeram Josemira. A diferença entre esse total e a votação em Canaã mede o alcance da estratégia regional, que levou a campanha a Parauapebas, Curionópolis, Ourilândia do Norte, Tucumã e outros municípios da região.
O resultado ganha outra dimensão quando se lembra de 2022. Naquele ano, o ex-prefeito Jeová Andrade, então no MDB, obteve 44.102 votos, 21.103 deles em Canaã, e ficou fora da Alepa por cerca de três mil votos. Antigo aliado e hoje adversário de Josemira, ele foi derrotado por ela em 2024. Agora, o grupo da prefeita alcançou o que Jeová não conseguiu.
Mudança no Executivo, MDB forte no Legislativo
A vitória de Daniel Santos no primeiro turno, com 51,36% dos votos válidos, interrompe o ciclo do grupo de Helder Barbalho, no governo desde 2019. Veio depois de uma reta final em que as pesquisas se dividiam entre vitória de Hana Ghassan, segundo turno e vitória do ex-prefeito de Ananindeua.
O resultado, no entanto, tem leitura dupla. O eleitor trocou o comando do Executivo, mas manteve o MDB forte em outras frentes. Helder foi o senador mais votado, o aliado Chicão ficou com a segunda vaga, e o partido elegeu a maior bancada da Assembleia, com 13 dos 41 deputados.
Os partidos da coligação de Daniel (Podemos, PL, DC, Novo e Solidariedade) elegeram 10 deputados estaduais. O novo governador chega, portanto, sem maioria própria na Alepa e precisará construir apoio entre outras siglas, incluindo, possivelmente, o próprio MDB.
Em Canaã, a disputa pelo governo terminou com Daniel com 33.174 votos ou 68,99% e Hana com 14.293, 29,73% dos votos, segundo TSE. O dado diz que o eleitor canaense não acompanhou a prefeita, aliada de Hana, na escolha do governador, separando o voto local do estadual.
Canaã diante do novo comando
É na relação entre Canaã e Belém que o recado das urnas fica mais delicado. A gestão Josemira, do MDB, esteve alinhada aos governos de Helder e Hana. A campanha de Eugênio foi lançada em agosto ao lado do ex-governador, da governadora e de Chicão. A partir de janeiro, o município passa a lidar com um governador eleito pelo campo adversário.
O mapa local também ganha um elemento novo. O PL, partido pelo qual Jeová Andrade enfrentou Josemira em 2024, integra a coligação vitoriosa e indicou a vice-governadora eleita, Ellayne D’Almeida. A oposição municipal passa a ter um canal direto com o novo governo, o que pode reequilibrar forças de olho em 2028, quando Josemira não poderá disputar outro mandato. As perguntas são: Quem no município vai representar este novo Governo? Um novo grupo vai se fortalecer para enfrentar o forte grupo do ex-governador Helder Barbalho?
Há, por outro lado, fatores que empurram para o diálogo. Canaã tem orçamento previsto de mais de R$ 2 bilhões para 2027 e depende menos de repasses estaduais do que a maioria dos municípios. Mas parte das demandas centrais da campanha, como a duplicação da PA-160 e a ampliação da rede regional de saúde, passa necessariamente pelo governo do estado.
Na Assembleia, Eugênio será um deputado de primeiro mandato dentro da maior bancada, num cenário em que o governador precisará de votos fora da própria coligação. Essa posição pode render poder de negociação para as demandas do Sul e Sudeste ou levar o novo deputado à oposição, a depender do rumo que o MDB escolher.
A aproximação com o deputado federal Keniston Braga, ainda na campanha, sob o lema da união pela região de Carajás, sugere que o grupo já trabalha com alianças que vão além das fronteiras partidárias. Essa disposição tende a ser testada logo nos primeiros meses do novo governo.
O recado
O eleitor entregou ao grupo da prefeita a representação que o município buscava havia décadas, mas o colocou do lado oposto ao do novo comando do estado. Uma vitória e um desafio saíram da mesma urna.
Os próximos meses, entre a diplomação e as posses de janeiro e fevereiro, devem mostrar se a política regional vai se organizar em torno de partidos ou em torno da região. Canaã arrecadou R$ 1,248 bilhão em royalties no ano passado, e suas principais demandas passam por estradas, saúde e ensino superior. Para um município assim, saber de que lado sentar à mesa com o novo governo vale mais do que qualquer placar.

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