A sete dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, o cenário eleitoral em Canaã dos Carajás tem dois movimentos opostos. Na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), a principal força política do município se reúne em torno de uma candidatura própria, a de Eugênio Gadelha (MDB). Na corrida pela Câmara dos Deputados, porém, as lideranças locais se dividem entre ao menos cinco candidatos, quase todos ligados à base da governadora Hana Ghassan.
Eugênio Gadelha e a aposta na Alepa
Canaã chega à eleição com 73.483 eleitores, 5.138 a mais que em 2024, um crescimento de 7,5%. No mesmo período, o eleitorado do Pará cresceu 0,63%. Mesmo com esse peso, o município ainda não tem um deputado estadual próprio, e é essa lacuna que organiza a campanha de Eugênio Gadelha.
Engenheiro de carreira na indústria, com passagem pela Vale, Eugênio deixou a Secretaria Municipal de Obras para disputar sua primeira eleição. Concorre com o número 15321 e é casado com a prefeita Josemira Gadelha (MDB), reeleita em 2024 com cerca de 80% dos votos válidos. Foi a quarta vitória seguida do MDB na prefeitura.
A candidatura foi homologada na convenção estadual do MDB, em 1º de agosto, na mesma chapa que confirmou Hana Ghassan à reeleição e Helder Barbalho ao Senado. O lançamento em Canaã, em 21 de agosto, reuniu milhares de pessoas, com a presença de Helder e de Chicão (União Brasil), também candidato ao Senado.
As propostas dependem, em grande parte, de decisões do governo estadual. Entre elas estão a instalação de uma unidade do Hospital de Amor em Canaã, um hospital regional em Parauapebas, a duplicação da PA-160, novas escolas estaduais e um plano de diversificação econômica para o Sul e Sudeste do Pará.
O obstáculo é aritmético. Mesmo com votação expressiva em casa, uma vaga na Alepa costuma exigir dezenas de milhares de votos e o desempenho do partido como um todo. Por isso a campanha tem comitê em Parauapebas e agenda em Curionópolis, Tucumã, Ourilândia do Norte, Rio Maria, Floresta do Araguaia, Dom Eliseu e Tucuruí. Em Parauapebas, declararam apoio o presidente da Câmara, Anderson Moratório (PRD), e o vereador Josivaldo da Farmácia (PSDB).
A divisão dos votos para a Câmara Federal
Na disputa para deputado federal não há um candidato de Canaã, e as principais lideranças do município se espalham por pelo menos cinco campanhas. A prefeita Josemira Gadelha apoia Ivanaldo Braz (PSD, 5555), deputado estadual de Parauapebas que teve 65.495 votos em 2022, mais de 42 mil deles na própria cidade. A aliança foi lançada em abril como uma dobrada com Eugênio. Braz leva o candidato a estadual ao eleitorado de Parauapebas e recebe em troca o apoio do grupo que governa Canaã. As bandeiras que ele divulga são regionais: hospital regional, PA-160 e escolas estaduais.
Na Câmara Municipal, o apoio vai para outros nomes. O presidente da Casa, Flávio Gomes, e o vereador Wilson Leite apoiam Jader Filho (MDB, 1515). Ex-ministro das Cidades, Jader deixou o cargo em abril para disputar a eleição e é irmão do candidato ao Senado Helder Barbalho. Os vereadores Daniel Nunes e Dionísio Coutinho estão com Jair Martins (Republicanos), ex-prefeito de Conceição do Araguaia. Jair apoia a reeleição de Hana Ghassan, mas recusa dividir palanque com o PT, que integra a aliança da governadora. Para presidente, declarou apoio a Flávio Bolsonaro e estabeleceu como meta 100 mil votos.
Fora do Legislativo, o ex-vereador Ailson Talismã apoia Renilce Nicodemos (MDB, 1577). Em março, ela liderava entre os deputados federais que buscam a reeleição na pesquisa do instituto Doxa, com 9,68%. O vereador Chefinho, que desistiu de disputar vaga na Alepa, faz campanha para Keniston Braga (MDB). Keniston foi o décimo deputado federal mais votado do Pará em 2022, com 126.027 votos, tem base em Parauapebas e um mandato voltado à mineração e à repartição da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM).
O resultado é uma base governista unida para estadual e dividida para federal. Três dos cinco candidatos são do MDB, o partido da prefeita. Ainda assim, o apoio foi para um nome do PSD. Os votos de Canaã para a Câmara dos Deputados tendem a se espalhar, o que reduz o peso do município na eleição de qualquer um deles.
Oposição discreta e candidaturas locais
Dos nomes locais apresentados como pré-candidatos a estadual no início do ano, só um seguiu na disputa. O ex-vereador Anderson Mendes concorre pelo Podemos, com o número 20021. Até a prestação de contas parcial, ele havia declarado R$ 16 mil em receitas, e a maior parte dos gastos foi com carro de som e mobilização de rua.
O ex-prefeito Jeová Andrade, que teve cerca de 19% dos votos válidos na eleição para prefeito de 2024 e disputou uma vaga na Alepa em 2022, sem se eleger, não tem aparecido com destaque na campanha. Sua participação se resume a apresentar candidatos aliados nas redes sociais, sem agenda de rua conhecida no município.
O que o 4 de outubro vai medir
A apuração vai responder a três perguntas em Canaã. A primeira é se a força que deu cerca de 80% dos votos a Josemira Gadelha em 2024 se transfere para um candidato que disputa sua primeira eleição, e se o desempenho fora do município basta para levar Canaã pela primeira vez à Alepa.
A segunda é qual dos candidatos a federal sai de Canaã com mais votos, e quanto disso reflete o apoio da prefeitura, o da Câmara Municipal ou o de outras lideranças. O mapa de votação vai mostrar se Braz, Jader Filho, Jair Martins, Renilce Nicodemos e Keniston Braga dividem o eleitorado de forma equilibrada ou se um deles se destaca.
A terceira é o peso dos 5.138 eleitores que entraram no cadastro desde 2024. Nenhuma pesquisa pública mediu até agora como vota esse eleitorado novo.
