Um relatório apresentado pela Vale em Brasília projeta a próxima década como um dos períodos de maior expansão da mineração na história do país e coloca Canaã dos Carajás em posição de destaque nesse movimento. O documento “Destravando o Potencial da Mineração no Brasil”, elaborado em parceria com a consultoria Accenture e apresentado no dia 18 de agosto, será entregue a todos os candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026 como contribuição para o debate sobre políticas públicas do setor.
Por que Canaã está no centro dessa história
Poucas cidades brasileiras concentram tanta relevância estratégica para a mineração quanto Canaã dos Carajás. A Mina do Sossego, inaugurada em 2004, transformou a economia e a demografia do município e o consolidou como um dos principais polos de produção de cobre do país. Anos depois, a chegada do Complexo S11D Eliezer Batista elevou Canaã a outro patamar: o empreendimento se tornou uma das principais operações de minério de ferro da Vale, ligando o município diretamente à cadeia mineral voltada ao mercado internacional.
Essa combinação, cobre e minério de ferro de alta relevância global, é exatamente o tipo de ativo que o relatório da Vale aponta como decisivo para o próximo ciclo. O cobre, em especial, ganha peso estratégico diante da eletrificação da economia mundial: é insumo essencial para redes de transmissão de energia, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e fontes renováveis. Com o avanço do Projeto Bacaba, a perspectiva é de que a atividade cuprífera em Canaã continue se expandindo nos próximos anos.
O que o relatório da Vale projeta para o país
O estudo estima que a cadeia mineral brasileira, hoje responsável por cerca de 3 milhões de empregos diretos, indiretos e induzidos, pode chegar a 5,3 milhões de postos até 2035. A produção mineral anual, atualmente perto de R$ 300 bilhões, poderia saltar para R$ 535 bilhões, alta de 78%, e a arrecadação de impostos do setor passaria de R$ 750 bilhões, registrados na última década, para R$ 1,3 trilhão no novo ciclo, entre 2026 e 2035.
Para chegar a esses números, a Vale propõe 15 iniciativas organizadas em quatro frentes: previsibilidade no licenciamento ambiental, integração da cadeia produtiva mineral, segurança regulatória e institucional, e geração de valor compartilhado nos territórios onde a atividade acontece, item que toca diretamente municípios como Canaã dos Carajás. Um dos entraves apontados é o baixo conhecimento geológico do subsolo brasileiro: apenas 28% do território está mapeado em escala considerada adequada para atrair novos investimentos em pesquisa mineral.
O presidente da Vale, Gustavo Pimenta, defendeu que o país retome a realização de megaprojetos na faixa de US$ 15 bilhões a US$ 20 bilhões, citando a própria S11D, erguida em Carajás há cerca de dez anos, como o último empreendimento desse porte tocado pela companhia. Para ele, uma agenda estruturada pode transformar a mineração em plataforma de geração de emprego, renda e desenvolvimento, conciliando avanço econômico e proteção ambiental.
Minerais críticos e a disputa geopolítica
O documento também surge em meio à disputa internacional crescente por minerais estratégicos para a transição energética. A demanda mundial por lítio pode crescer 493% até 2035, segundo o levantamento, enquanto grafita, terras-raras, cobre e minério de ferro de alta qualidade também devem registrar avanços expressivos. O Brasil concentra reservas relevantes desses recursos, incluindo 66% de todo o nióbio do mundo e a Província Mineral de Carajás, onde Canaã está inserida, é uma das áreas mais ricas nesse cenário.
Canaã já vinha puxando essa conversa
A apresentação do relatório em Brasília reforça um debate que Canaã dos Carajás já havia protagonizado localmente. Nos dias 5 e 6 de agosto, o município sediou o V Congresso Técnico do Simineral, com o tema “Mineração e Amazônia: competitividade, responsabilidade e legado”. O encontro reuniu mineradoras, especialistas e autoridades para discutir exatamente os pontos que agora aparecem no relatório nacional: minerais críticos, transição energética, licenciamento ambiental e desenvolvimento regional.
A pergunta que ficou no centro daquele debate segue em aberto e ganha ainda mais peso com as projeções da Vale: como transformar a riqueza extraída do subsolo de Canaã em legado permanente para sua população? O uso estratégico da CFEM, a diversificação da economia local e a qualificação profissional da mão de obra aparecem como as principais respostas discutidas até aqui.
Com o novo ciclo de expansão da mineração brasileira batendo à porta, Canaã dos Carajás não é apenas um dos cenários desse movimento é um dos municípios que devem definir se essa riqueza projetada para o país vai se traduzir, de fato, em desenvolvimento duradouro no território onde ela nasce.
