No segundo domingo de agosto (amanhã), milhões de famílias brasileiras se reúnem para homenagear seus pais. Neste ano, a data cai em 9 de agosto. Mas por que o Brasil escolheu justamente esse mês, diferente de boa parte do mundo? E o que essa celebração diz sobre o papel da figura paterna na sociedade contemporânea? A reportagem a seguir percorre a origem da data, suas variações pelo planeta e o significado que ela carrega dentro de casa.
Por que agosto, no Brasil?
A resposta está menos na simbologia e mais na estratégia comercial. O Dia dos Pais brasileiro nasceu em 1953, por iniciativa de Sylvio Bhering, então diretor do jornal O Estado de S. Paulo. A ideia era clara: criar uma data comemorativa que impulsionasse o comércio em um período de vendas mais fraco, à semelhança do que já acontecia com o Dia das Mães em maio.
A escolha de agosto não foi aleatória. O mês tem, tradicionalmente, uma data católica de destaque: o dia de São Joaquim, celebrado em 16 de agosto e considerado, pela tradição cristã, o avô de Jesus e pai de Maria. Para reforçar o apelo religioso e afetivo da nova data, decidiu-se comemorar o Dia dos Pais no domingo mais próximo a essa celebração o que, na prática, consolidou o segundo domingo de agosto como a data fixa no calendário nacional.
Passadas mais de sete décadas, a origem comercial praticamente se dissolveu na memória coletiva. Hoje, a data é vivida como um momento afetivo genuíno, incorporado ao calendário emocional das famílias brasileiras.
Como o mundo celebra os pais
O Brasil está longe de ser unânime nessa escolha. Pelo mundo, a data varia bastante e cada versão carrega sua própria história.
Nos Estados Unidos, onde a celebração moderna começou a ganhar forma, o mérito é atribuído a Sonora Smart Dodd, que em 1910, no estado de Washington, propôs uma data para homenagear seu próprio pai, viúvo que criou sozinho seis filhos. A ideia levou décadas para virar lei: só em 1972 o Dia dos Pais foi oficializado nacionalmente, sempre no terceiro domingo de junho modelo seguido também por países como Canadá, Reino Unido, China e Índia.
Já em partes da Europa católica, como Espanha, Itália e Portugal, a celebração está ligada a São José, padroeiro dos pais e trabalhadores, comemorado em 19 de março.
A Rússia tem uma abordagem completamente distinta: celebra o “Dia do Defensor da Pátria”, em 23 de fevereiro, uma data que originalmente homenageava os militares e hoje se estendeu, na prática popular, a todos os homens do país.
Essa diversidade de datas revela algo interessante: não existe um consenso universal sobre quando homenagear os pais, mas existe um consenso sobre a necessidade de fazê-lo. Cada cultura encontrou seu próprio símbolo religioso, histórico ou afetivo para justificar a pausa no calendário.
Como as famílias comemoram
No Brasil, a data se traduz em rituais simples e recorrentes: o almoço em família, muitas vezes reunindo várias gerações na mesma mesa; a churrasqueira acesa cedo; presentes que vão da tradicional camisa de time a produtos mais elaborados; e, cada vez mais, mensagens e ligações de filhos que moram longe.
Comercialmente, a data também se consolidou como uma das mais importantes do varejo nacional, atrás apenas do Natal e do Dia das Mães. Lojas de roupas, eletrônicos, ferramentas e bebidas costumam registrar aumento expressivo nas vendas nas semanas que antecedem o segundo domingo de agosto.
Mas para além do consumo, pesquisas sobre comportamento social apontam uma mudança de tom nas últimas décadas: a comemoração deixou de ser apenas sobre presentear e passou a valorizar mais o tempo de convivência visitas, conversas, atividades compartilhadas. Um reflexo de como a própria figura paterna mudou.
A paternidade em transformação
Se o Dia dos Pais de 1953 homenageava, sobretudo, o provedor; a figura que sustentava o lar financeiramente, o pai celebrado hoje ocupa um lugar mais amplo na vida da família. Estudos na área de psicologia do desenvolvimento infantil, publicados nas últimas décadas, têm demonstrado que a presença ativa do pai não apenas como provedor, mas como cuidador, educador e referência emocional impacta diretamente aspectos como autoestima, desempenho escolar e capacidade de regulação emocional dos filhos.
Essa mudança também aparece na configuração das próprias famílias. Pais solteiros, pais adotivos, padrastos, avôs que assumem a criação dos netos, casais do mesmo sexo a data, hoje, é celebrada por uma pluralidade de arranjos familiares que ampliaram o conceito de paternidade para muito além do vínculo biológico.
Uma data, muitas histórias
No fim das contas, o Dia dos Pais resiste porque toca em algo universal: a necessidade humana de reconhecer quem ajudou a nos formar. Seja em torno de uma mesa farta, em uma ligação de poucos minutos ou apenas em um pensamento silencioso para quem já não está mais presente, a data cumpre sua função original mesmo que sua origem tenha sido, em boa parte, comercial.
Neste segundo domingo de agosto, para além do calendário e das vitrines, fica o convite mais simples de todos: parar, ainda que por um momento, para dizer obrigado.
